quinta-feira, 25 de maio de 2017

Pote vazio

Por que parece que está tudo tão errado quando esse é o momento em que tudo deveria parecer mais certo? São nove meses até o dia com o qual eu venho sonhando por toda a minha vida e eu estou chorando e voltando a escrever neste bloco de notas como se fosse um diário. Ok. Colocarei algumas lágrimas na conta da TPM, do estresse de encontrar lugar, vestido e forminhas de doce perfeitos e, principalmente, nessa distância sacana que parece ser tão geográfica quanto emocional.

Toc. toc. toc. Você ainda está do outro lado? Antes de ontem você me disse que, se não estivéssemos onde estamos, estaria me dizendo que as coisas não estão funcionando. De repente, tudo também parece estar desse jeito para mim. A diferença é que o lugar onde estamos é fictício, é convencionado. Se nossa voz andar para trás, esse lugar desaparece e voltamos a ser uma garota e um garoto no Omegle. Queremos isso?

Eu digo sempre que você é o meu melhor amigo porque, honestamente, tem sido a única pessoa por quem tenho tentado fazer algum esforço ultimamente. Para os outros, me sinto ocupada demais, cansada demais, com vontade de ficar sozinha demais. Para os outros, eu estou com você. Só que não estou. Você também se sente só. Eu não sei onde me perdi porque, quando me ligam ou me mandam mensagens, sempre digo que estou com você. Só que nunca estou.

Não sinto falta das nossas conversas longas e cheias de assunto. Não sinto falta das risadas que demos juntos através da tela do computador. Não sinto falta de beijo nem de abraço nem de carinho. No momento, não tenho saudade. Acredito que o pote da saudade está vazio e tampado. Agora está cheio apenas o pote das expectativas. E elas são muitas. Sobre mim e sobre você e sobre nós dois.

Penso que você é exatamente o que eu sempre quis. Você vai ser um ótimo pai. Você é compreensivo, respeitador, sabe impor respeito, tem ambições na vida, quer me levar junto e me adora de um jeito admirado e grave. Só que tudo isso não me deixa com saudade de nada. Eu me sinto só meio vazia de gente e é meio como se toda essa gente fosse um pouco de quem eu sou. Aquela gente. Que eu nem sei por onde anda ou exatamente quem era. Eram todos fragmentos de mim que agora já não são. Eu já não sou.

Sigo sem vontade de nada. Percebendo o perigo que é viver cheia de expectativas para o outro lado quando o hoje, que é a ponte, parece estar se desfazendo sob os meus pés. Se o hoje for completamente corroído, como chegarei até nós dois outra vez?

Cada passo em frente é meio passo em falso e eu não sei porquê. 

O hoje é vazio, é silêncio, é um pouco da gente se afastando em direção ao desconhecido que não está tão visível diante de mim.

E eu estou com medo. Se essa ponte se esfacelar por completo, sinto como se a minha única opção fosse cair num vazio infinito onde não há você, eu ou expectativas. Mas a saudade, ah, essa me seguraria pelos tornozelos, me puxaria os cabelos e me abraçaria ao cair. O verdadeiro vazio é sempre um grito alto e meio rouco que rapidamente enche de desespero o pote da saudade.

domingo, 28 de setembro de 2014

Suflê de repolho

Não confio. E todas as manobras pra que eu confie parecem milimetricamente ensaiadas, planejadas, palavras despejadas uma a uma como receita de suflê de repolho. Tudo o que ele diz soa meio falso. Uma repetição da coisa certa que faria qualquer um do lado de fora pensar: ué, mas se ele contou isso é porque não tinha nada a esconder. Pelo contrário. O esconderijo dele fica por trás das palavras, naquele lugar que ninguém desconfia que exista, mas que eu reconheço muito bem porque muitas vezes me encolhi num canto de lá.

Ele fala do que sente com sinceridade e paixão. Parece confuso e depois, do nada, toma uma decisão como quem decide com a força do mundo abandonar uma dúvida e abraçar uma certeza. Eu sou a certeza que ele quer abraçar, mas a dúvida se veste de um jeito um tanto sensual e meio que se insinua, seminua, tentando seduzir. Ele se atrai e se distrai de mim. Aí vem chorando suas incertezas e me pedindo que eu o assegure de que é verdadeiro, de que vai passar e de que eu vou estar sempre ali. O problema é que eu não sei se vou estar.

Eu não confio e todas as lágrimas dele fazem um barulho ensurdecedor por dentro de mim. É a luta do meu subconsciente tentando nadar até a superfície pra dizer que todas aquelas palavras foram ensaiadas, que todas as manobras foram planejadas e que ele está escondido por detrás de si mesmo, das lágrimas e das palavras. Fodendo a dúvida de quatro numa rapidinha enquanto eu, cheia de todas as minhas certezas, me fodo sozinha.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Your song

Hoje decidi escrever um texto pra você porque, no aleatório do meu celular, começou a tocar aquela música melancólica na voz da moça triste. Você sempre dizia que preferia o homem cantando, mas por algum motivo, só escutava a versão aguda da mulher chorosa. 

Decidi escrever porque estou sentindo falta de quase tudo. Da melancolia e das bobagens. Saudade de você dançando arrocha desengonçado na porta do banheiro daquele hotel chique, do passinho da toalha nas costas rebolando o quadril, da mania irritante que você tem de beijar só o canto da minha boca e sugar como se fosse canudo. Que raiva que isso dá! Mas eu to com saudade.

Da sua cara de tédio quando eu pedi a foto na frente daquela roda gigante imensa em Londres e do relojão, como é mesmo o nome? Do seu prato super saudável e enorme na Pizza Hut só porque a salada era free! E isso me fez sorrir largo. Lá em casa, os tomates estragando no armário e você parecendo que nunca tinha visto mato na vida quando descobriu que, na Pizza Hut, salada era à vontade.

Lembrei das suas implicâncias comigo, de você me perguntando se tava ok dormir naquele troço super desconfortável que ficava no chão e eu fingindo que dormia bem a noite toda só porque, se eu não fingisse, você ia querer trocar de lugar e eu sabia que seriam só seis horas de sono antes do seu despertador apitar. A verdade é que eu esperava você ir trabalhar pra dormir na sua cama, debaixo do seu lençol, imaginando que seu cheiro era meio você. Se eu fechasse os olhos, nem dava pra perceber que você já tinha ido embora.

Daí você chegava e, todos os dias, antes de tomar banho, plugava o celular nas caixas de som num volume indecente e me trancava do lado de fora, só pra gritar do banheiro that I could tell everybody that this was my song. Mas não era. Era só a música melancólica da moça triste que você sussurrou em meus ouvidos encostando seu peito molhado e meio gelado nas minhas costas. Me abraçando por trás, cantando desafinado e dois tons abaixo da voz esganiçada nas caixas de som that it's a little bit funny this feeling inside.

Se eu fechar os olhos, posso sentir outra vez sua boca, sua pele e a água entre nós dois e aí quase nem dá pra perceber que você já foi embora.




domingo, 2 de fevereiro de 2014

Eu não sei fazer isso, minha senhora

É, não sei namorar assim à deriva, sem ver terra firme. Não sou Dora, não sou aventureira. Eu quero coisa séria com seu filho, moça, minhas intenções são as melhores possíveis. Quero queimar o arroz dele, fazer torta de carneiro moído pra ele, acordar cinco da manhã todos os dias que ele tiver que ir trabalhar no turno mais cedo do mundo só pra fazer um sanduíche, dar um beijinho, olhar pra ele.

Eu não sei bancar a possivelmente um dia esposa dele. Eu sou a esposa dele hoje, só que daqui a dois, três anos. Sou eu que estou aqui, não é? Eu que prometi que nunca ia embora e prometi de coração mesmo, valendo. Pensei que os olhos dele também fossem de promessas fáceis, mas a verdade é que ele não sabe. Ele não sabe o que vai acontecer amanhã, quanto mais daqui a dois, três anos.

O seu filho, dona, me disse que não tinha medo de se apaixonar, mas eu acho que ele mentiu. Se você se segura nos postes pra impedir a correnteza de te carregar, é mentira que se apaixonou. Paixão é deixar toda a lama dos barrancos entrar na sua roupa, sentir a sujeira da chuva te encharcando e te puxando e daí prender a respiração e se deixar levar. Bueiro abaixo ou em direção ao mar.

Eu não sei fazer isso, minha senhora. Me apaixonar pelas beiradas, sendo intensa no momento e vendo no que vai dar. O meu maldito sol em Virgem entala na garganta e eu fico até tonta se não organizar rapidinho os livros nas prateleiras da minha mente. Em ordem cronológica, alfabética, numérica, crescente. É que não sei namorar assim à deriva, sem ver terra firme. Não sou Dora, não sou aventureira.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Coluna - Repostando

Dentro de mim, 13 de abril de 2010.

Pode chorar, mãe.

Encosta a cabeça em qualquer lugar e coloque pra fora todo esse peso que te aperta o peito. Lágrimas não vão te fazer menos mulher, não vão mudar nada, chorar não vai te fazer fraca. Só deixa sair, mãe. Inunde as ruas, inunde seus muros, inunde suas lembranças de água salgada tão sua, mas limpe toda a dor que lateja aí dentro. Pode ser o que quiser do meu lado, mãe. Eu sei que lembranças estão aí o dia inteiro te fazendo ponderar o futuro e o tanto que ele parece nublado e incerto. Há coisas que a gente espera e, mesmo assim, nos surpreendem quando vêm. Então pode chorar, mãe. Não deixe que essa batata na garganta, esse grito sufocado, esses dias girando em sua memória fiquem onde estão. Faça com que desçam pelo ralo ou guarde-os. Dê-me todos e eu os segurarei em minhas mãos fechadas. Mãos ainda novas, mas que entendem que você precisa respirar. Falo sério, mamãe, pode chorar! Estou aqui com você pra te escutar, estou do seu lado pra te abraçar. Conta comigo, minha amiga. Se considere, hoje, minha menina e deite em meu colo pra ser pequena outra vez. Naquele vestido simples de chita, com aquela sapatilha de fivela bonita, volte a ser criança e não se prenda tanto no mundo que criou. Saia daí, mãe. Você não precisa ser forte o tempo inteiro, vamos lá. Eu estou aqui e sou sincera quando digo que pode chorar. Tempo integral de Helena não te faz imortal. Sinta-se humana, dispa-se desse peso. Pare, descanse, desabafe. Obrigada por cuidar de mim, mas se deixe ser cuidada só por hoje. Obrigada por cuidar de todos, mas deixe-os de lado pra viver, mamãe. Eu seguro as pontas pra você desabar um pouco. Fico em pé pra você sentar, então repito: mãe, pode chorar.

Uma amiga.

Por você

A tela em branco me denuncia. Expõe, sem palavras, o silêncio em que a minha vida se tornou quando decidi calar a minha voz para ouvir a sua melodia. Ela era alta, preenchia a sala, me aquecia em canção, mas acabou. O som suave se esvaiu de mim e cessou, sem notas. E eu nem sei se você notou. Pôs os fones de ouvido e  esqueceu que os meus passos já estavam no seu ritmo.
A tela em branco me agonia. Grita em meu rosto que me perdi demais por dentro dos becos em que você se escondia. Não sei mais se sei voltar àquela rua que era minha, às tontas verdades que me sorriam. Agora é só uma carta vazia, uma meia verdade que é completa mentira.
Incorporei em mim os seus desejos anormais. E todos os defeitos que você deixou pra trás. Tenho sob a pele a lágrima que não chorei e ela escorre junto com os pedaços de mim que, de maneira indecente, abandonei. Por você. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bengala


Segura em si mesma uma vida
Conta histórias e escarnece
Ri-se da fragilidade que incita
Assiste inerte enquanto o mundo perece

É chasco cambaleando os passos
Desfazendo toda a honra
Refazendo em pouco caso
A mão estendida àquele a quem zomba

Laços de nós


Quero te encontrar no calor do sol e o mar
Já que nos perdemos vendo a lua na areia
Fiquei sozinha com esse amor que incendeia
E as memórias que me fazem regressar

Quero te encontrar no calor do sol e o mar
Já que o frio nunca fez muito por nós dois
Se juntos, à distância, nos deixamos pra depois
Há um laço que ainda pode reatar

Quero te encontrar no calor do sol e o mar
Pelas dunas, pelas nuvens, do amor que bateu em mim
Pelas ruas que, em sonhos, são labirintos sem fim
Te persigo toda noite e te vejo evaporar

Não confesso, me disfarço
E desfaço o ponto cego
Mas a verdade meio oculta
É que eu quero te encontrar.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Carteiro-maestro


Ela se pensava estranha vestindo a roupa de outra, mas a fantasia lhe cabia tão bem. Era uma criança travessa tentando os sapatos da mãe e, com o rosto sujo de maquiagem, se sentia linda no reflexo dos olhos dele. Ele era o responsável. Como o maestro de uma sinfonia estranha com baquetas desajeitadas ainda pendendo no ar, ele era o que controlava a sinfonia. A moça sentiu falta da risada, das mentiras quase verdadeiras que contava para vê-lo sorrir e saber que cada som de felicidade era uma corda de violão, um roçar de violino, um aperto de piano entre eles. Só que os apertos entre eles foram tantos que chegaram a sufocar. Se ele se esquecesse dela, a garota se esquecia de respirar. Ela olhou pela janela tentando se imaginar a vida inteira sem aquele sorriso e teve a sensação de que conseguiria, mas, meu Deus, como não queria! Se pudesse desejar uma única coisa ao gênio da lâmpada imaginário seria só mais uma vez olhar naqueles olhos que fingiam não perceber a maquiagem errada pro seu tom de pele. Ou talvez só mais uma vez ouvir as mesmas palavras como se não soubesse que tinham errado de endereço ao chegar aos seus ouvidos. Ela desejaria só mais uma vez ser aquela que recebe a encomenda e não passa o recado. A garota guardava para si os bilhetes do carteiro-maestro, anotava todos os avisos e não avisava a ninguém. Ao contrário. Valia-se dos tickets, usava-os como vale-refeição e se alimentava disso. Vestindo a roupa de outra, sugando um amor que não se inventou para ela nem por ela, usurpando a melodia, a história, a verdade de outra que veio antes e que não lhe cabia. Não tão bem quanto a fantasia. Era mesmo uma criança travessa com sapatos maiores que os seus pés, mas, no reflexo dos olhos dele, continuava linda.


What You're Made Of 



Just like i predicted, we're at the point of no return
We can go backwards
And no corners have been turned
I can't control it, if i sink or if i swim
'Cause I chose the waters that I'm in

And it makes no difference who is right or wrong
I deserve much more than this
'Cause there's only one thing I want

If it's not what you're made of
You're not what i'm looking for
You were willing, but unable to give me any more
There's no way, you're changing
Cause somethings will just never be mine
You're not in love this time but it's allright

What's your definition of the one
What you really want him to become?
No matter what I sacrifice it's still never enough

Just like I predicted I will sink before I swim
'cause these are the waters that i'm in

Menino

If I should stay
I would only be in your way
So I'll go but I know
I'll think of you
Every step of the way

You, my darling you

Bittersweet memories,
That is all I'm taking with me
So goodbye, please don't cry
We both know I'm not what you, you need

I hope life treats you kind
And I hope you'll have
All you've dreamed of
And I wished you joy
And happiness
But above all this, I wish you love

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

The Character


He rolls himself up to a snail shape
And he unrolls his confused thoughts of why
When he thinks he found it inside of him
All he can see is an obtuse lyrical I

He discovers the role that he assumes
Presents and represents all life long
And when he doesnt fit in the melody he already chose
He quickly turns off the distorted tuneless song

The man behind the costumes melts inside of it
But the actor half snail never thinks of leaving him

So what's left in himself is makeup
Maybe all that he made up
Is now spreaded and twisted on the floor

He reminds that he is the character carrying its own knife
And the stage where he plays is the life
It cuts and it hurts but never mind: he is alive
And life itself is the best suicide

“In the circle of light on the stage in the midst of darkness, you have the sensation of being entirely alone... This is called solitude in public... During a performance, before an audience of thousands, you can always enclose yourself in this circle, like a snail in its shell... You can carry it wherever you go.” ― Constantin StanislavskiAn Actor Prepares


Tradução Adaptada:
A personagem

Ele enrola a si mesmo em formato caracol
E desenrola seu pensamento de "por que?", confuso
Quando pensa que encontrou dentro de si
Tudo o que pode ver é um eu-lírico obtuso

Ele descobre o papel que assume
Apresenta e representa toda a vida
E quando não se encaixa na melodia que escolheu
Rapidamente desliga a música desafinada e distorcida

Derrete o homem por trás do figurino
Mas o ator meio caracol nunca pensa em deixá-lo

O que sobra em si é uma miragem
Talvez tudo o que inventou, sua maquiagem
Está agora, no chão, espalhada e retorcida
Lembra-se que é o ator carregando a própria faca
E o palco em que encena é a vida

Ela corta e dói, mas não importa: ele está vivo
E a vida, em si mesma, é o melhor suicídio

“No círculo de luz sobre o palco no meio da escuridão, você tem a sensação de estar completamente sozinho... Isso se chama solidão em público... Durante uma performance, diante de uma audiência de milhares, você sempre pode fechar-se nesse círculo, como um caracol em sua concha... Você pode levar isso aonde quer que você vá.”  Constantin StanislavskiA Preparação do Ator

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Remetente: melhor amiga


Ela é a minha melhor!
Melhor amiga, melhor comediante, melhor conselheira, melhor calma pros meus momentos desesperados.
É meu outro lado da balança. Necessária pra me manter estável, sã e com cara de quem nasceu assim.
É meu diário falado,
 meu saquinho de papel. 
A mão branquela com dedos gordinhos que me segura, me apoia, me bate e me faz cafuné. Porque também tem que ter carinho, né?
Também que ter o entender o fluxo rápido de palavras que nem eu mesma entendo, tem que entender o silêncio. Menos entender olhares porque isso aí é impossível!!! Já tentei treinar essa criatura, mas a lerdeza impera. E o amor também. (Me deixe ser fofa!) 
O reflexo no espelho. Completamente igual mas completamente diferente. Presente nos piores e melhores momentos da minha vida. Se não presencial, psicologicamente. E você sabe exatamente do que eu estou falando! Ou não, porque, como eu falei, a lerdeza impera kkkkkkkk =X
Eu te amo, Carla. E todas as que você se (re)fez. 
É minha irmã. De verdade. Minha Carlete!

Feliz ano novo! *-*

"Enquanto houver você do outro lado...
Aqui do outro, eu consigo me orientar!"

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Autocombustão

Eu poderia começar a escrever dizendo que não sei bem o que me atingiu, mas não seria bem verdade. Foi você o que me atingiu e eu sei disso com toda essa certeza errada que me provoca autocombustão ao lembrar do seu sorriso. Aliás, acho que não é bem o sorriso. Acho que foi o olhar que me passou segurança. E o que é segurança pra uma pessoa perdidona dentro de si mesma, senão migalhas caindo da mesa?
Foi você que atingiu a boca do meu estômago com um soco de simpatia e aquela solicitude padrão que te faz tão britânico quanto qualquer inglês em qualquer filme. Olha, um gentleman. Olha, que droga, agora esse texto não pode mais ser abstrato por que, de repente, te personifiquei. Dei nome às personagens e, como evito fazer, te arrastei vivinho para o centro da festa. Para o meio do texto.
Não fui discreta como tenho que ser, não fui compreensiva como finjo entender. É, acabou que, no final das contas, vomitei seu endereço, vomitei você. Ah, o inglês? Eu já sei quem é. É aquele sotaque que atingiu meu cérebro quase como uma condenação. E eu fico sozinha me certificando de que não estou apaixonada por que se ele tanto fala, eu não entendo uma palavra e odeio tanto assim, só pode ser paixão. O que mais se encaixaria nos sintomas "ódio" e "confusão"? 
Meio Alice atrás do coelho, encolho e cresço enquanto me perco. Estou longe de achar uma saída. O extintor de incêndio mais próximo fica na outra esquina. A porta de emergência está longe demais e eu, num país de sonhos, em autocombustão. Pegando fogo por dentro, mas em silêncio. Quem olha de fora só me vê apontando pra fé e remando com um sorriso na cara, mas o texto te defraudando mostra que não sou tão  Alice assim. Não tão atriz e nem a melhor de todos na arte de fingir. É que estou queimando por dentro e ninguém vê! E, se vê, me julga. E, se me julga, não percebe o desespero que é estar debaixo da mesa catando migalhas. Lambendo o chão. Fingindo acreditar que quem mente sou eu. Que a rainha de copas sou eu.
Sou aquela imperfeita, bem-intencionada que muda de opinião quase sem culpa. Quase. E que fica rindo de si mesma e pensando que, sinceramente, eu não estou apaixonada nada. Eu estou é louca! E a única solução para a minha loucura em chamas é ser aquela que incendeia a sua chuva. Que molha-queima o seu sorriso tonto e o seu olhar de bom moço. O mesmo olhar que, em silêncio, me ateia fogo por dentro.


Intertextualidade com: Set Fire to the Rain - Adele; Feliz por Nada - Martha Medeiros; Dois Barcos - Los Hermanos

"Em uma outra vida, eu seria sua garota
Nós manteríamos todas as nossas promessas,
Seriamos nós contra o mundo
Em uma outra vida, eu faria você ficar"



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um Setembro Solitário


Sentado aqui completamente sozinho
Apenas tentando pensar em algo para fazer
Tentando pensar em alguma coisa, qualquer coisa
Apenas para me impedir de pensar em você
Mas você sabe que não está funcionando
Porque você é tudo que está em minha mente
Um pensamento sobre você é o suficiente
Para deixar o resto do mundo para trás

Bom, eu não pretendia que fosse tão longe como foi
E eu não pretendia me aproximar tanto e dividir o que nós dividimos
E eu não pretendia me apaixonar, mas me apaixonei
E você não pretendia corresponder, mas eu sei que correspondeu

Estou Sentado aqui, tentando me convencer
Que você não é a pessoa certa para mim
Mas quanto mais eu penso, menos eu acredito
E mais eu quero você aqui comigo

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Paraquedas meio suicida

Eu poderia escrever um texto sobre o cara que pixou o meu coração à facadas, mas as marcas falam mais que os meus gritos. É bem provável que a minha intenção seja escrever sobre aquele amigo por quem sou quase apaixonada e que, por um acidente de percurso, me conheceu anos depois da sua própria namorada, mas esqueço que textos sempre parecem ser mais do que são. E não estou apaixonada. Só quase.
Poderia escrever sobre uma amiga que esqueceu de responder minhas mensagens, mas a minha cota de drama estouraria os seus tímpanos.
Talvez eu devesse escrever sobre o menino proibido que espreme pimenta em algum lugar dentro de mim e, todos os dias, me contorço inteira. Menino que me arde por dentro e arranca verdades como um dente siso da alma sendo puxado com dor, mas por uma boa causa. Abrindo espaço na boca pra organizar meu sorriso e os sabores novos que ainda não conheci. Porque estar junto dele é um paraquedas. Meio suicida, meio me fazendo sentir viva.
Então lembro que não posso falar do proibido sem sentir uma pontada de culpa. É que abri o meu coração riscado para um outro bandido com canetas na mão e ele não fez questão nenhuma de esconder seus motivos. Também não fiz questão nenhuma de esconder os meus gritos.
Que encontre as partes intocadas nas paredes. Que a culpa me consuma. E que, por dentro da pimenta, ainda seja doce.


"Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas
E o teu olhar sempre me engana
É o fim do mundo todo dia da semana"

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mil pedaços


Levanto perdida em memórias e me arrumo tantas vezes que o espelho condena silenciosamente a minha vaidade. Visto o meu pescoço em colar e, por dentro do reflexo, perco as contas das lembranças no espelho. É aí então que o fecho se rompe. O colar se rompe e, no fundo de mim, alguma outra coisa espalha contas pelo chão. É o barulho dos meus mil pedaços ecoando pela casa. É a certeza finalmente trazendo um pouco mais de alma. Se o colar se parte, se tudo nele espalha, não há colar que se refaça. Me perdi aos poucos, mas não perdi inteira. Ainda posso juntar contas e começar do zero. Talvez um colar novo me vista sem memórias.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Eu devo estar triste, senão estou louca


Estou dizendo que estou triste, mas nem eu mesma acredito. Parece que não faz sentido, mas faz. Porque não estou parecendo triste. Estou é fazendo umas coisas bem tristes tipo ficar em casa vendo comédia romântica e desejando dormir, dormir, dormir até afundar na cama. Marquei com uma amiga de passarmos a tarde juntas hoje e ela não veio. E fiquei agradecendo já que daí eu podia dormir mais.

Mas de manhã cedo, quando eu tive que sair pra levar as fotos do ensaio na gráfica, eu estava assoviando no onibus, lendo O diário da princesa pela segunda vez - e você sabe que eu nunca leio nada pela segunda vez -, ouvindo músicas alegres e sorrindo para o motorista.

Meu amigo me perguntou cadê aquele menino que eu ficava falando na webcam enquanto estava na faculdade, eu abanei a mão e disse "ah, sabe que eu não sei?  A gente parou de se falar e eu to triste". Daí ele me disse que eu fico triste de um jeito estranho e eu respondi assim, bem vaga, algo como:  "sim, gosto dele há quase quatro anos... To bem triste. Na verdade, to péssima"

Meu amigo olhou pra mim e riu. Ficou rindo porque eu obviamente não estava triste. Ninguém que está péssima fica saltitando na rua, abraçando colegas gays da faculdade, dividindo Mendoratos e pegando panfletos porque "coitadas dessas meninas que ficam em pé o dia todo distribuindo essas coisas que todos jogam no lixo". Ninguém que está péssima diz que está bem triste. Mas eu estou triste. E quero dormir para sempre até afundar na cama.

Também estou cansada de ficar me lamentando. Outro dia fiquei lamentando para outro amigo. "Poxa, que droga que ele não me ama". Tem lamentação mais idiota? Sei lá, fiquei me achando idiota. Não tenho nem o que lamentar sem achar que eu mesma estou sendo idiota. Já me queixei por tantas coisas diferentes, por tudo o que tinha para me queixar.

Eu fiz tudo errado da primeira vez e não deu certo. Eu fiz tudo certo da segunda vez e não deu certo de novo. Não tenho mais opções. A minha opção é ficar triste sozinha, sem ter que forçar isso nas pessoas. Por que eu simplesmente não sei traduzir isso. Essa sensação de que estou dando ctrl+v na minha própria tristeza.

"Ah, droga, eu já senti isso antes" ou "Ah, droga, não tenho ele no meu facebook, mas espera... eu também não tinha seis meses atrás". Enfim, é só copiar e colar que você vai perceber que está tudo igual. Só que agora sem esperanças, então acho que essa é uma tristeza mais desesperada que as outras. Só que desesperada e quieta, por que a voz que eu tinha pra gritar foi embora na oitava ou nona tristeza.

E também tem outra coisa estranha: eu estou feliz em todo o resto!

Isso, essa coisa, esse lugar dele que não é mais dele, que é pra ele sair e eu estou tentando expulsar falando até com Deus agora. Isso está triste, machucando, doendo e tal, mas há outras mil coisas felizes, mil coisas que me dão uma vontade enorme de brigar comigo mesma e dizer "Pára, Carla, você não tem esse direito, ele não é seu!  Não aja como uma criança mimada que acabou de perder o seu brinquedinho. Acorda, Carla, ele foi embora há meses!"

E daí eu digo! Digo isso para mim mesma e não adianta nada porque eu só fico mais triste. E as outras coisas felizes são ainda mais felizes quando eu estou triste. Dentro de mim mesma são coisas demais sendo tão diferentes que me sinto quase culpada.  Tanto pela tristeza quanto pela alegria. Não posso ser feliz perdendo o cara que eu amei por quatro anos... Não posso ser triste só por perder um cara que nunca me amou durante quatro anos.

Aí eu fico calada por que não sei o que dizer. Sinceramente eu devo estar triste, senão estou louca.

Né?

"Não briguei mais por você, porque ter você seria muito menos do que ter você. Não te liguei mais, porque ouvir sua voz nunca mais será como ouvir a sua voz. Não te escrevo porque nada mais tem o tamanho do que eu quero dizer. Nenhum sentimento chega perto do sentimento. Nenhum ódio ou saudade ou desespero é do tamanho do que eu sinto e que não tem nome." - Tati Bernardi

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Não importa

"Mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim" - Caio Fernando Abreu

terça-feira, 12 de junho de 2012

Consultório Sinistro


Queria ter inspiração hoje para escrever algo bonito, mas, ao invés disso, resolvi apenas escrever. Por que não sei mais o que fazer e, entre chorar e orar pedindo uma coisa que nem sei o quê, escrever me pareceu razoável. Afinal, nada me impede de escrever pra Deus. Como também nada me impede de fazer das letras as minhas lágrimas e das verdades no papel o meu soluço.

Vivo alardeando o meu cansaço, meu desespero ou a minha esperança amalucada. Vivo sorrindo por dentro e por fora e depois me arrependendo do que não sofri e sofrendo mais um pouco pelo que já vivi. Trazendo meu passado à tona como se ele não pudesse descansar em paz por que morreu de repente. Transformando meu passado em alma penada e o obrigando a me assombrar de TPM em TPM.

Há um nome correndo por meus dedos. Escorre da caneta em forma de menino. Seja de joelhos enquanto converso com o Altíssimo, seja sentada enquanto falo de amor, seja deitada na grama sussurrando pras estrelas, seja de pé na autoescola esperando a minha vez de conferir a digital no corredor. O nome dele corre por meus dentes, passeia por minha língua, beija os meus lábios e escapa. Escapa sem pressa e, às vezes, escondido. Se eu me distraio um segundo, repito, repito “...”.

Aí é que entra a minha chance de inventar mil razões, decifrar os motivos e tentar me convencer, com a ajuda de todas as amigas e amigos, de que ele não volta. Não houve amor, nada mais dará certo, isso é tudo ilusão. Não pode haver um “senão”, senão eu morro de esperança amalucada.  Sufocada de paixão. Desesperada.

Contando os dias, contando as horas pra vê-lo novamente e sem palavra nenhuma na mente que ensaie esse momento cômico. Por que a única palavra que os meus lábios sabem dizer é o nome dele e conversa nenhuma se sustenta num nome. A única imagem que minha cabeça sabe pensar é de um “ele” tão distante que nem sei mais se há. Ah, que se dane! Ainda faço questão de tudo e nem sei que tudo é esse que tanto me consome.

Deus me manda esperar, minha amiga me manda esperar, ele me deixa esperando sem trazer nem uma revista que eu possa folhear. Estou num consultório sinistro e os quadros da parede são quadros-fantasma. Com as pinturas renascentistas do meu passado-alma-penada. Comigo ainda esperando, já meio desesperada. Sufocada de paixão. Amalucada.

Nem sei mais o que preciso fazer, mas entre chorar e orar pedindo uma coisa que nem sei o quê, hoje me pareceu razoável escrever.