quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Coluna - Repostando

Dentro de mim, 13 de abril de 2010.

Pode chorar, mãe.

Encosta a cabeça em qualquer lugar e coloque pra fora todo esse peso que te aperta o peito. Lágrimas não vão te fazer menos mulher, não vão mudar nada, chorar não vai te fazer fraca. Só deixa sair, mãe. Inunde as ruas, inunde seus muros, inunde suas lembranças de água salgada tão sua, mas limpe toda a dor que lateja aí dentro. Pode ser o que quiser do meu lado, mãe. Eu sei que lembranças estão aí o dia inteiro te fazendo ponderar o futuro e o tanto que ele parece nublado e incerto. Há coisas que a gente espera e, mesmo assim, nos surpreendem quando vêm. Então pode chorar, mãe. Não deixe que essa batata na garganta, esse grito sufocado, esses dias girando em sua memória fiquem onde estão. Faça com que desçam pelo ralo ou guarde-os. Dê-me todos e eu os segurarei em minhas mãos fechadas. Mãos ainda novas, mas que entendem que você precisa respirar. Falo sério, mamãe, pode chorar! Estou aqui com você pra te escutar, estou do seu lado pra te abraçar. Conta comigo, minha amiga. Se considere, hoje, minha menina e deite em meu colo pra ser pequena outra vez. Naquele vestido simples de chita, com aquela sapatilha de fivela bonita, volte a ser criança e não se prenda tanto no mundo que criou. Saia daí, mãe. Você não precisa ser forte o tempo inteiro, vamos lá. Eu estou aqui e sou sincera quando digo que pode chorar. Tempo integral de Helena não te faz imortal. Sinta-se humana, dispa-se desse peso. Pare, descanse, desabafe. Obrigada por cuidar de mim, mas se deixe ser cuidada só por hoje. Obrigada por cuidar de todos, mas deixe-os de lado pra viver, mamãe. Eu seguro as pontas pra você desabar um pouco. Fico em pé pra você sentar, então repito: mãe, pode chorar.

Uma amiga.

Por você

A tela em branco me denuncia. Expõe, sem palavras, o silêncio em que a minha vida se tornou quando decidi calar a minha voz para ouvir a sua melodia. Ela era alta, preenchia a sala, me aquecia em canção, mas acabou. O som suave se esvaiu de mim e cessou, sem notas. E eu nem sei se você notou. Pôs os fones de ouvido e  esqueceu que os meus passos já estavam no seu ritmo.
A tela em branco me agonia. Grita em meu rosto que me perdi demais por dentro dos becos em que você se escondia. Não sei mais se sei voltar àquela rua que era minha, às tontas verdades que me sorriam. Agora é só uma carta vazia, uma meia verdade que é completa mentira.
Incorporei em mim os seus desejos anormais. E todos os defeitos que você deixou pra trás. Tenho sob a pele a lágrima que não chorei e ela escorre junto com os pedaços de mim que, de maneira indecente, abandonei. Por você. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bengala


Segura em si mesma uma vida
Conta histórias e escarnece
Ri-se da fragilidade que incita
Assiste inerte enquanto o mundo perece

É chasco cambaleando os passos
Desfazendo toda a honra
Refazendo em pouco caso
A mão estendida àquele a quem zomba

Laços de nós


Quero te encontrar no calor do sol e o mar
Já que nos perdemos vendo a lua na areia
Fiquei sozinha com esse amor que incendeia
E as memórias que me fazem regressar

Quero te encontrar no calor do sol e o mar
Já que o frio nunca fez muito por nós dois
Se juntos, à distância, nos deixamos pra depois
Há um laço que ainda pode reatar

Quero te encontrar no calor do sol e o mar
Pelas dunas, pelas nuvens, do amor que bateu em mim
Pelas ruas que, em sonhos, são labirintos sem fim
Te persigo toda noite e te vejo evaporar

Não confesso, me disfarço
E desfaço o ponto cego
Mas a verdade meio oculta
É que eu quero te encontrar.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Carteiro-maestro


Ela se pensava estranha vestindo a roupa de outra, mas a fantasia lhe cabia tão bem. Era uma criança travessa tentando os sapatos da mãe e, com o rosto sujo de maquiagem, se sentia linda no reflexo dos olhos dele. Ele era o responsável. Como o maestro de uma sinfonia estranha com baquetas desajeitadas ainda pendendo no ar, ele era o que controlava a sinfonia. A moça sentiu falta da risada, das mentiras quase verdadeiras que contava para vê-lo sorrir e saber que cada som de felicidade era uma corda de violão, um roçar de violino, um aperto de piano entre eles. Só que os apertos entre eles foram tantos que chegaram a sufocar. Se ele se esquecesse dela, a garota se esquecia de respirar. Ela olhou pela janela tentando se imaginar a vida inteira sem aquele sorriso e teve a sensação de que conseguiria, mas, meu Deus, como não queria! Se pudesse desejar uma única coisa ao gênio da lâmpada imaginário seria só mais uma vez olhar naqueles olhos que fingiam não perceber a maquiagem errada pro seu tom de pele. Ou talvez só mais uma vez ouvir as mesmas palavras como se não soubesse que tinham errado de endereço ao chegar aos seus ouvidos. Ela desejaria só mais uma vez ser aquela que recebe a encomenda e não passa o recado. A garota guardava para si os bilhetes do carteiro-maestro, anotava todos os avisos e não avisava a ninguém. Ao contrário. Valia-se dos tickets, usava-os como vale-refeição e se alimentava disso. Vestindo a roupa de outra, sugando um amor que não se inventou para ela nem por ela, usurpando a melodia, a história, a verdade de outra que veio antes e que não lhe cabia. Não tão bem quanto a fantasia. Era mesmo uma criança travessa com sapatos maiores que os seus pés, mas, no reflexo dos olhos dele, continuava linda.


What You're Made Of 



Just like i predicted, we're at the point of no return
We can go backwards
And no corners have been turned
I can't control it, if i sink or if i swim
'Cause I chose the waters that I'm in

And it makes no difference who is right or wrong
I deserve much more than this
'Cause there's only one thing I want

If it's not what you're made of
You're not what i'm looking for
You were willing, but unable to give me any more
There's no way, you're changing
Cause somethings will just never be mine
You're not in love this time but it's allright

What's your definition of the one
What you really want him to become?
No matter what I sacrifice it's still never enough

Just like I predicted I will sink before I swim
'cause these are the waters that i'm in

Menino

If I should stay
I would only be in your way
So I'll go but I know
I'll think of you
Every step of the way

You, my darling you

Bittersweet memories,
That is all I'm taking with me
So goodbye, please don't cry
We both know I'm not what you, you need

I hope life treats you kind
And I hope you'll have
All you've dreamed of
And I wished you joy
And happiness
But above all this, I wish you love

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

The Character


He rolls himself up to a snail shape
And he unrolls his confused thoughts of why
When he thinks he found it inside of him
All he can see is an obtuse lyrical I

He discovers the role that he assumes
Presents and represents all life long
And when he doesnt fit in the melody he already chose
He quickly turns off the distorted tuneless song

The man behind the costumes melts inside of it
But the actor half snail never thinks of leaving him

So what's left in himself is makeup
Maybe all that he made up
Is now spreaded and twisted on the floor

He reminds that he is the character carrying its own knife
And the stage where he plays is the life
It cuts and it hurts but never mind: he is alive
And life itself is the best suicide

“In the circle of light on the stage in the midst of darkness, you have the sensation of being entirely alone... This is called solitude in public... During a performance, before an audience of thousands, you can always enclose yourself in this circle, like a snail in its shell... You can carry it wherever you go.” ― Constantin StanislavskiAn Actor Prepares


Tradução Adaptada:
A personagem

Ele enrola a si mesmo em formato caracol
E desenrola seu pensamento de "por que?", confuso
Quando pensa que encontrou dentro de si
Tudo o que pode ver é um eu-lírico obtuso

Ele descobre o papel que assume
Apresenta e representa toda a vida
E quando não se encaixa na melodia que escolheu
Rapidamente desliga a música desafinada e distorcida

Derrete o homem por trás do figurino
Mas o ator meio caracol nunca pensa em deixá-lo

O que sobra em si é uma miragem
Talvez tudo o que inventou, sua maquiagem
Está agora, no chão, espalhada e retorcida
Lembra-se que é o ator carregando a própria faca
E o palco em que encena é a vida

Ela corta e dói, mas não importa: ele está vivo
E a vida, em si mesma, é o melhor suicídio

“No círculo de luz sobre o palco no meio da escuridão, você tem a sensação de estar completamente sozinho... Isso se chama solidão em público... Durante uma performance, diante de uma audiência de milhares, você sempre pode fechar-se nesse círculo, como um caracol em sua concha... Você pode levar isso aonde quer que você vá.”  Constantin StanislavskiA Preparação do Ator