quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Moída


Há tanto tempo não venho aqui. Faz semanas que não sinto o meu espírito leve o suficiente para compartilhar alguma coisa. E ainda estou assim. Meio suspensa entre tudo o que eu quero viver, acumular, entender. Estou meio tristeza, meio alegria e um completo de ânsia. Ansiosidade, nojo, medo, asco. Quero tanta coisa agora. Que ele pare de falar comigo como se eu fosse obrigada a fazer parte desse jogo idiota, que tudo volte ao normal, que a carne moída se refaça em carne inteira. Também estou moída, sabe? Por que tenho a culpa, o peso, a angústia e tudo o mais me sufocando. Tenho ele me sufocando. Com as lembranças, com sua falta de perdão, com essa mágoa estranha que escorre da sua língua e me fere por dentro, por fora. Me machuca. Já estou cansada demais para jogos bizarros, não posso manter as minhas pernas firmes, os meus passos lentos e a cabeça erguida. Cada palavra é outra batata escorregando garganta a dentro. E ele sabe. Me fere, me odeia e me ama. Que amor estranho, eu sei. É por isso que faz tanto tempo que não venho aqui. Cansei de ser só dor em um livro aberto. Assim que fizer sol eu volto. Prometo.

"...dessa vez era um amor mais realista e não romântico: era um amor de quem já sofreu por amor." - Clarice Lispector

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Recusa

Torcendo a língua, os dedos e os desencantos de um momento inteiro em minha garganta arranhada de tristeza pura. É a falta, a saudade e uma interrogação imensa gritando em meus ouvidos a pergunta mais intensa: "Ele volta?" Há de ter se escondido em algum lugar inalcansável, mas não sou incansável, estou me esvaindo em mim. Estou desgastando braços e pernas nesse esforço quase inútil de remar sozinha, nadar contra a maré sem impulso, a pulso, perdendo aos poucos a pulsação de vida que era o sorriso e a intensidade misturadas em porções pequenas. É impossível não lembrar e aceitar, me acomodar, me calar e evitar a mendicância desse amor que me pertenceu em algum passado que quase já não lembro. Então ele volta e vai embora, brincando com meus nervos em frangalhos, brincando com a minha fé já tão pouca. Ele volta e vai embora, me esmolando sentires, me cuspindo a cara com os fragmentos, poucos, da importância que me dá. A maneira como é tudo comum me tira as armaduras, joga as minhas armas ao chão. Devo ser paciente, mas a paz mais consciente que eu tenho não é a que hoje me acompanha. Sem angústia, sem desespero, sem nada que realmente represente vida. É só a sombra de tudo, é só reflexo do que já foi. É a garganta arranhada de tristeza pura.

"...e tudo que eu andava eu nao queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu nao quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era." - Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Buracos na cerca

Ele era do tipo que adorava um adjetivo. Bem pronome relativo e, apesar de sujeito simples, pouco previsível. Nada que fosse como os outros se encaixava em sua oposição. Conjunto de dissemelhanças. Conjunção adversativa. Ele me sorria em momentos de pouco sol e o brilho dos seus olhos me fazia querer rir. Era qualquer coisa de desconhecido e eu me apaixonando pelo mistério por trás do homem. Nenhuma indicação funcionava, nenhuma preposição se encaixava. Ele era um ponto de interrogação com ênfase. Ele era dois pontos de exclamação. Fui me enredando nas reticências e procurando o fundo do poço escuro. Tive medo, tive mãos para me apoiar na descida, tive curiosidade. Mas quanto maior a busca, maior o índice de indeterminação do sujeito.

Até um dia.

Em que desisti de descer e ele fechou para mim os seus lugares escuros. Acendeu a luz no raso e eu pude enxergar. Não há mais mistério que galgar, não há coisa alguma para desvendar. Estou de pés molhados e disposta a descer outra vez, mas fechou-se o fundo do poço. As mãos continuam estendidas, agora frias, agora vazias. E, apesar delas, me sinto sozinha. Agora intransitiva, sem complemento.



"Perder o vazio é empobrecer." - Ana Carolina

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

É tempo de respirar

Como é lindo o amanhecer; ao menos para mim. O sopro do vento em completa sincronia com o respirar permitem que eu afirme neste momento que tudo posso esquecer, tudo esqueço, quando se anuncia o primeiro raiar. Deste meu sonífero e particular mundo andei reparando na constante asfixia social e não me excluo dela, ou pelo menos não totalmente. Seres apáticos não percebem a própria apatia julgando apatias alheias em tons opostos. Que tolo devaneio! Uma pitada de ignorância numa sopa de evoluções deturpadas formam a receita exata para a construção de condomínios de luxo lacrados, morros sangrentos e amnésia do respeito ao ser humano. O continente mais quente... aquele que em um momento qualquer fez nascer o homem – o rastro dele. Pobres terras possuem lugar. Talvez a falta de um bom adubo não permitiu que os frutos que migraram dali fossem prósperos, solo infértil, quase um deserto... sem chances de oásis. Ó magnificência que é regada com o descaso! Não se sabe ao certo por que tanta magnitude, acredito que seja magma... lavas que destroem por completo: preconceito. As teorias biológicas (e por que não, o óbvio) afirmam indiscutivelmente que dentro do corpo humano o sangue é vermelho. Então por que ao invés de, na identidade étnica, afirmarmos que somos negros, pardos ou causasianos (dentre outras etnias), não colocamos sangue vermelho? Uma dose de miscigenação por favor! E para acompanhar: torradas de percepção e geleia de autenticidade!
Chega de sucumbir minha vontade! Erga-se por instantes... não há controle dessa tal “maluquice” misturada com “lucidez”... mas eu não vou ficar com certeza “maluca beleza”, quero insistir um pouco mais. E, por favor, quando eu abrir os braços, ao meu ver, não dê à toa um sorriso. Não sou só um negro lindo: sou luta, insistência, paciência, orgulho; sou constantes e inacabadas vitórias. Não ame a minha raça, não ame a minha cor; respeite o ser humano que sou, respeite a humanidade que somos. Reconheça sim, ao me ver passar, a paciência e a força que me animou e não me dizimou, que me trouxe aqui, eu estou aqui! Eu concluiria essas palavras se pudesse concluir uma razão exata para o desrespeito. E como não posso, permaneço vivendo dias imaculados aguardando o “neoamanhecer”. Meu balão de oxigênio está quase vazio, mas eu não desisti de expirar. Vamos revisionar nossas apatias; podemos sacudir o viver, podemos existir...
É tempo de respirar!



texto de Rebecka Monteiro Barros.

domingo, 29 de agosto de 2010

Prateleiras

Felicidade demais me dá medo. Parece que sempre que alguém está feliz a ponto de explodir... Explode. Cacos de alegria caindo na cabeça de todos e nada de sorrisos sobrando. Toda a vida que se esconde por trás de olhos apertados é aprisionada além da compreensão dos fatos. Mudanças me assustam. Mesmo que sejam necessárias, mesmo que sejam pensadas e analisadas com frieza. Mudanças me enervam. Dá vontade de colocar tudo em seu lugar outra vez e organizar certezas em minhas prateleiras internas. Arrumar meus livros de vivências em ordem alfabética. É que sou inconstante mesmo. Quero sair pulando na rua, quero ficar sozinha, quero alguém me escutando e desejo que me deixem em paz. Hoje acordei indiferente. Desejando que todo o seu orgulho e frieza engasguem-se em sua garganta apertada. Que sufoque dentro da sua própria altivez. Gosto do morno e sou sempre quente demais para mim. Cansei do seu gelo por hoje. Cansei de você por hoje. Mas isso passa, não passa?



"Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas, mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero ou vaidade
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz"

sábado, 28 de agosto de 2010

Be a child



"Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso." - Lya Luft

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Tudo bem

Não está tudo bem. E parem de perguntar se está. Parem de olhar para mim com esses olhares de pena. Me deixem em paz! Não preciso de ninguém me esperando o que fazer ou espreitando o meu sentir como se tudo dependesse de um sorriso meu. Falso sorriso meu. Não, não está tudo bem. E dane-se o que você mastiga quando quer cuspir doce. Eu estou cuspindo tudo o que há por dentro e é amargo o suficiente para não estar nada bem. Voltem às suas vidas, voltem às suas flores, seus livros, seus não-amores e me deixem sofrer. Sinceramente? Me deixem sofrer!