Só por que hoje eu não queria pensar em você, tocou aquela música horrível que dançamos meio desengonçados no ponto de ônibus. Me lembrei da sua insistência para que eu me soltasse, entrasse no ritmo, me deixasse levar... E apertei os olhos para afastar as memórias, mas, só por que eu resolvi com todas as minhas economias que não ia pensar em você, choveu daquele jeito que a gente chamava de "chuva de beijo" e eu lembrei que meu biquine na praia ficou cheio de areia quando você foi me beijar na chuva e caímos rolando terra abaixo. Por que mesmo a gente foi parar na praia naquele dia cinza? Sei lá, não importa agora. Estou me concentrando insistentemente para não pensar em você. Todas as minhas energias têm esse foco. Não vou reparar que o seriado que vai começar na TV é aquele que você comentava comigo todos os dias. Tão engraçado que fulano era, tão interessante que a coisinha era... E eu me sentindo amiga das personagens só por que você sabia tudo da vida deles e fazia questão de me contar. Já sonhei com eles uma vez, sabia? Mas não vou reparar. Juro. Taxistas de jeito nenhum me lembram aquele dia que a gente saiu correndo do restaurante chique - você de bermuda, eu de All Star - por que era tarde demais e o ônibus das dez já passara há quarenta e cinco minutos. Minha nossa, como você fala! Eu nem sorri quando ouvi a música que você colocou naquele vídeo para mim. É, aquela mesma que foi cantada-sussurrada no meu ouvido em frente à lanchonete de um lugar far far away. Eu odeio músicas assim. Nunca gostei mesmo dessa melosidade toda. Era só fingimento. Sério. Hoje que acordei decidida a não pensar mais, todo o universo conspirou contra mim. Tudo bem, desisti, amanhã prometo tentar outra vez.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Aceldama

A minha guerra foi travada. Dentro de mim decisões transformam qualquer mosquito em conflito. Um zumbido infinito de batalhas cotidianas em espadas de desejos e razões chocando-se. Sem problemas. Quanto mais branca a parede, mais perceptíveis as manchas. Fogo que arde sem chama. Como se chama mesmo o meu espaço de guerra? Aceldama. Que em aramaico quer dizer: Campo de Sangue.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Espremendo Palavras
Sabe o que às vezes me pego pensando? Me pego pensando se a vida não seria bem mais simples se todos tocassem violão ou piano. Queria ter a leveza das mãos do pianista para costurar os sonhos em agulhas de realidade e, por trás de tanta verdade, algumas ilusões embaladas pelo som do violão. Não seria tudo mais belo se pudéssemos acordar com o som de pássaros na janela e um piano tocando na casa vizinha? Eu penso que sim. Mas penso tanta coisa quando estou sozinha. Lembro das nossas conversas sentados na cozinha, revejo a nossa falta de palavras para as coisas que só os beijos comunicam entre si e entreabro a geladeira para pensar no seu sorriso. Como se eu precisasse de algo gelado me apertando a mente para esfriar a febre incessante desse amor mal destribuído. Espremendo-me as palavras e as entrelinhas desse texto indefinido. É que está tudo correndo em mim, entende? Todo o amor, toda a saudade e as lembranças infinitas que se acumulam no presente. Esse querer que sempre foi o meu pretérito perfeito do indicativo de certeza... E eu ainda me pego pensando no violão, no piano e em você. Mas neles dois eu só penso às vezes.
domingo, 18 de abril de 2010
Orvalho
Um pingo das tuas certezas e mais o meu mar de dúvidas envolvendo-o. A noite que cobre nossos pensamentos, os colchões amassados, os lençóis mal dobrados. Tudo parte da conspiração interna que nos une. O que desejo de ti? Nada além de tudo. Desejas então de mim o que me sobra? Que tenho para oferecer que senão os meus pedaços já não tão inteiros? Aqueles que ajuntei à beira do caminho, os cacos que, esmiuçados, me furaram como espinhos. Meu sangue misturado a eles, minha vida, meu suor. O que te ofereço é o que tenho de pior. Meu melhor. Todas as partes grandes, todo o amontoado de vazio que tenho por dentro, todos os espaços em branco e mais algumas linhas ainda não escritas. Aposto todas as fichas e leva o troco contigo. Não há indecisões agora, não há coragem lá fora além da covardia em vento. O medo em tempestade que acalma aqui dentro. As noites de insônia e os pingos por lá que mal podem ser notados. Tenho em minha cama os lençóis mal dobrados. E, pela janela, tanta chuva é só orvalho.
sábado, 17 de abril de 2010
Decifra-me ou devoro-te
E ontem, numa conversa ao telefone, ele disse.
"Eu te gosto assim: Imagine um balde. Agora eu coloco todas as minhas pedras grandes dentro, coloco todas as minhas pedras médias, coloco todas as minhas pedras pequenas. Agora coloco areia e água por cima. É assim que eu te gosto."
E ela tem pensado nisso desde então.
"Eu quero te levar adiante, e quero te dar todo o valor que te cabe. Quero te sentar nos lugares que você merece sentar-se e te dar o cuidado e o respeito que você merece, quero aprender a decifrar todas esses teus enigmas cinzas e coisas que você me diz e que me deixam forte, forte, forte – e fraca de tanto querer. Quero que você perceba que abri espaço agora, e que você pode se acomodar e ficar até quando quiser.
Todos dormem já. Só em mim que a saudade não dorme.
E quase me esqueço, um pedido que quero fazer:
Confia em mim. Me dá a mão bem forte e pula comigo daqui." - Dani Cabrera
"Pai, afasta de mim este cale-se!"
- ... pois estou sozinha, Senhor. - Ela interrompeu a sua prece quando ouviu passos descendo as escadas rumo ao porão escuro onde se escondia.
- Por aqui! - alguém gritou. - Acho que encontrei alguém!
Ela encolheu-se ainda mais tentando parecer menor do que os 157 centímetros que tinha e ocupar o mínimo espaço possível, mas a sua respiração ainda parecia alta demais. Seu coração chacoalhava dentro do peito e era impossível não tremer ao sentir aquele filete de suor gelado escorrer por suas costas quentes.
- Onde ela está? - outra voz, dessa vez mais perto.
Valquíria cerrou os punhos e levantou-se devagar.
- Eu estou aqui. - sussurrou e depois mais alto: - Eu estou aqui!
Todos os homens - ela contou rapidamente seis ou sete - viraram-se para a figura magra que tremia num dos cantos fétidos daquele porão imundo.
- Então pensou que poderia esconder-se de nós? - os soldados perguntaram.
- Não, - ela respondeu. - nunca pensei que poderia me esconder de ninguém. Nunca desejei esconder meu rosto, esconder meus pensamentos, esconder a minha verdade. - a coragem presa em sua garganta foi soltando-se lentamente à medida que as palavras iam sendo cuspidas. - Eu estou aqui, como apenas mais uma mulher brasileira que deseja liberdade. Revoltei-me com essa nação desde que...
O Brasil, terra de mártires e guerreiros, lugar daqueles que não desistem por nada, palco de acontecimentos surpreendentes. País de liberdade.
Será?
Há tanto tempo acabou a ditadura e, em conseqüência disso, há tanto tempo não nos revoltamos contra a censura imposta pelo governo e pela mídia. Há tabu, há parcialidade, há incoerência. É, hoje, desconhecido o paradeiro dos jovens brasileiros que tiveram voz há tanto tempo pois a nação brasileira se calou diante de uma imprensa sensacionalista qualquer, processos de 'emburrecimento' em massa vide o Big Brother e as proibições esdrúxulas como o processo de censura na internet proposto pelo senador Azeredo.
Maquiada de "verdade absoluta", a nossa informação foi intoxicada por notícias sem sentido ou aproveitamento e nossos jovens acomodaram-se nas noções pós-modernas de individualismo. Não há mais sentimento de necessidade nacional, não existe vontade ou coragem de lutar por direitos desconhecidos pela nova juventude.
A censura não se esconde mais atrás de fardas verdes, mas está dentro de nós. Quando sentamo-nos em frente à televisão e esperamos pelas mesmas informações mastigadas, quando estamos cansados demais para ler um jornal e quando preferimos o messenger aos meios presenciais de comunicação. Estamos censurando a nossa capacidade de pensar e, em função disso, cansamos de pensar.
Ser censurado não é o pior. O que realmente preocupa é ver tantos braços cruzados diante disso.
Um tiro na boca selou o fim da breve vida de Valquíria. O corpo magro, no auge dos vinte e dois anos, jazia agora no porão da casa abandonada por soldados da ditadura.
Valquíria recebera a sua sentença por falar demais. Qual será a nossa sentença por calar-nos demais?
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Pegadas
Ele esteve esperando por mim todo o tempo. Me ouviu quando meu grito confundia-se com um silêncio inerte, me consolou quando precisei de um abraço e não havia mãos por perto, cuidou de mim quando até ser eu mesma ardia como se eu fosse uma capa de mim mesma. Ele me prometeu que estaria ao meu lado enquanto caminhássemos pela areia da praia, mas eu esqueci dEle e passei a viver como se o amor que Ele sente por mim fosse meramente ilusório. Como se tudo o que eu já havia sido junto dEle não fosse mais nada. Nossa história se desvaneceu no meu mar de escolhas novas, na minha montanha de decisões confusas que não deixavam brecha nenhuma para que Ele conversasse comigo. Calei a Sua voz dentro de mim e tentei, desesperadamente, soltar a minha mão da dEle. Não foi tão fácil.
Debati-me, então, querendo ser livre desse amor que sufocava, desejando andar por trilhas minhas e me machucar com pedras quaisquer que cruzassem o meu caminho desconhecido. Eu quis soltar as minhas mãos pois entendi que não precisava mais dEle.
E Ele, de longe como permiti que ficasse, acompanhou os meus passos enquanto meus pés faziam um caminho novo sem a Sua ajuda.
Isso até hoje. Hoje, quando acordei e me senti presa à outra coisa que não o Seu amor infinito. Senti-me enlaçada por minhas próprias e sufocantes escolhas. Senti-me esmagada pelo peso das minhas decisões infundadas. Então acordei e olhei para o lado. Não havia nem sombra das suas pegadas andando comigo na areia. Hoje eu chorei.
Ele sorriu, enxugou minhas lágrimas uma a uma e disse com a mesma voz branda com a qual costumava me repreender:
- Jamais pense que nos lugares onde há só uma pegada Eu saí do teu lado. Estes foram apenas os momentos que te carreguei no colo para que a onda passasse.
Deu-me então a Sua mão outra vez e voltamos a caminhar lado-a-lado.
Deus, eu e Seu amor incondicional.

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Pauta: Diga-nos quem é essa pessoa que te segura pela mão?
Para: Bloínquês