terça-feira, 12 de abril de 2011

Quando os muros caíram

Estou me decidindo por ser mais arteira. Menos fronteira, mais pontes. Sacudindo um pouco o pó do meu tapete e sujando tudo outra vez por que a vida é isso. Limpar e sujar com uma poeira nova. Quero as terras de outros lugares e as lembranças de outros sorrisos. A novidade de cada pôr-do-sol visto por muitos e o nascer do astro rei que é segredo enquanto todos dormem. Me prometo nascer em segredo e morrer num espetáculo diário com minha roupa de rainha dourada. Imitarei o sol, beijarei a lua e serei dona dos quadros que pinto. Dona de olhos fechados e coração aberto. Só um pouco mais de alma gritando tintas berrantes e, às vezes, calmas. Vou arrumar outros caminhos e desativar meus alarmes. Me desfazendo da segurança e cortando o último fio que me prende a qualquer coisa que leve embora o meu sorriso. É, estou finalmente sendo mais arteira. Mais pontes, menos fronteira.

"Mesmo que isso tenha me assustado muito aqui e ali. No somatório de tudo, foi graça, alívio e abertura." - Ana Jácomo
 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

"Pela estrada afora, eu vou bem sozinha..."

Eu mudando de assunto por que ela pediu. Ainda não sei falar de mim por que, do meu jeito, continuo  escrevendo para me esconder, não é? Quem acha que  minhas palavras são completos de exposição se engana. Palavras são muros, paredes de concreto e não há pior caminho para dar de cara com algo que me desvende. Veja bem, sente-se aqui, escute pela milésima vez a história que me obrigo a repetir. Sou uma fumaça sem fogo, sou uma intenção sem resposta. Ando meio sem sentido rua afora por que não há solução quando o problema inexiste. Lembro dos meus fantasmas, mas parei de criá-los e fui ali ser livre. Não me espere para tão cedo, eu não volto, acredite.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

No circo

Eu era do tipo que acreditava piamente em relacionamentos equilibrados. Todos amam o mesmo tanto e que não se discuta. Aham. Agora escuta: Isso é bobeira. Sempre tem alguém que, depois de alguns meses se equilibrando na corda do amor igualitário, escorrega e cai. Quando essa pessoa se espatifa na rede de proteção, deixa lá em cima alguém ainda meio sem fôlego tentando se ajeitar. O fio se balança para todos os lados e não adianta. De braços abertos, de braços fechados, de todo o jeito que seja: Já há alguém que não está mais equilibrado. O amor não é mais igualitário. O meu desejo é o seguinte: Que da próxima vez seja eu que caia, eu que seja pega pela rede protetora e o próximo amante fique na corda balançando-se até quando - ou se - eu resolver voltar a tentar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Citação

"Sim, amei sem limites. Dei meu coração de bandeja. Sim, sonhei com casinhas, jardins e filhos lindos correndo atrás de mim. Mas tudo está bem agora, eu digo: agora. Houve uma mudança de planos e eu me sinto incrivelmente leve e feliz. Descobri tantas coisas. Tantas, Tantas. Existe tanta coisa mais importante nessa vida que sofrer por amor. Que viver um amor. Tantos amigos. Tantos lugares. Tantas frases e livros e sentidos. Tantas pessoas novas. Indo. Vindo. Tenho só um mundo pela frente. E olhe pra ele. Olhe o mundo! É tão pequeno diante de tudo o que sinto. Sofrer dói. Dói e não é pouco. Mas faz um bem danado depois que passa. Descobri, ou melhor, aceitei: eu nunca vou esquecer o amor da minha vida. Nunca. Mas agora, com sua licença. Não dá mais para ocupar o mesmo espaço. Meu tempo não se mede em relógios. E a vida lá fora, me chama!" - Fernanda Mello

sábado, 19 de março de 2011

Contramão

Ontem eu estava conversando com uma amiga, lembrando um momento tão antigo quanto as páginas riscadas do meu diário empoeirado e me peguei contando a história de outra pessoa. Era eu ali, o momento foi vivido por mim, mas as sensações não ficaram guardadas. Como se fosse outra vida, como se fosse outro alguém. E acho que era. Eu mudei tanto, ele mudou tanto quando as coisas se desfizeram através dos dias. O calendário meio louco soltando as folhas e eu meio desesperada tentando juntá-las. Mas não se pode deter o outono catando as folhas caídas no chão, diria Aytano Roriz. Não se pode mudar o caminho quando os seus próprios sentidos estão em contra-mão. E caminhei sem destino para o lado contrário. Nadei correnteza acima com esperança e braços cansados. Hoje tenho apenas o cansaço, a esperança ficou no diário empoeirado, marcada à ferro no sorriso de outra pessoa. Não eu, a garota da história.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Altar de um erro


Sei lá, eu estou com tanto medo de não ser realmente ele. A certeza de que ainda iríamos nos encontrar no futuro está indo embora na mesma medida em que a realidade me assedia. Lembro do olhar de desprezo, lembro da indiferença completa com relação aos meus sentires e a minha própria sensação de estar completamente nua de alma na frente de alguém que cuspia nojo à minha nudez. Me expus por ele e, também em função dele, despi a minha verdade em fragmentos demais. Hoje a realidade pinga em minha testa com gotas de tortura. Não havia amor por trás daquele olhar, não há maneira de ter esperanças quando o amor inexiste, mas não venha me dizer que fui eu que não amei nunca. Eu sei o que era aquilo. Aquilo era tudo o que eu tinha de melhor deixado aos pés de alguém. E aqui encontro o meu erro: Deixar amor aos pés de outra pessoa é sempre a pior escolha. Entregue-o nas mãos ou recolha-o e vá embora, mas nunca deposite tudo de si no altar de um erro. Tropeço então em minhas piores memórias e, de joelhos esfolados, levanto e sorrio. Recolhi o meu amor, mas não tente me dizer que ele nunca existiu. Posso não saber o que vem depois, mas, com certeza, lembro do que já fui.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A saudade bateu, foi...

Acabou, já tenho certeza. Respiro fundo e lá vem ele outra vez. Acabou nada, percebo. Começo, por dentro de mim, a entender o que Vercilo quis dizer em seus versos confusos: Que nem maré. 'Tá vazio, meu querido. Me esvaziei todinha e agora tenho só um pouco das lembranças aqui comigo. 'Tá cheio, meu amor. E não consigo controlar a vontade inevitável de ligar, mandar mensagem - que a operadora não libere aqueles créditos extras esse mês, meu Deus. - e correr para perto. Vazio, cheio e a maré mudando sem fim. O problema é que a intensidade é louca e o sentimento parece proparóxitona: acentuado, sempre acentuado.