Eu estava correndo ladeira abaixo como se tivesse a polícia de mil cidades nos meus calcanhares, mas só queria mesmo era chegar em casa. Como ousava ser tão indiscreto e pular os meus muros desse jeito? Eu ali, perdidamente apaixonada por seu irmão, estava agora mais que confusa com os toques dele e aquele aperto que esperava fundir nossos corpos. É, era exatamente isso que ele planejava fazer. Juntar os nossos corpos para tirar o meu príncipe encantado da minha cabeça. Por que desde quando corpo e cabeça podem trabalhar juntos? É como amarelo e azul. Ou é um, ou outro ou tudo passa a ser verde. O que estou falando agora? Meus sentimentos são verdes? Logo eu que me achava tão madura, gritei para as paredes vazias do meu apartamento solitário. O irmão, resmunguei tirando os sapatos sujos de qualquer coisa da rua. Que fosse o primo, um conhecido, que não fosse ninguém! E com tanta mulher na terra, por que o cafajeste viria em busca da princesa? Eu estava tão feliz em meu castelo... Como eu preciso de uma luz, meu Deus! Preciso que esse homem me deixe em paz para seguir feliz. Eu era tão feliz e agora é só confusão na minha cabeça. Seu nome não é Dona Flor, me lembro. Acho que está me crescendo é uma vontade de bater com tudo na parede até esmiuçar todos os pedaços e misturar coração, cabeça, vontade e meu erro mais injusto. Vontade louca pelo irmão do príncipe. Me jogo na cama, olho o teto por alguns minutos e respiro fundo outra vez. Tudo bem, eu nunca gostei mesmo de cavalos.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
Taíse Lisbela - 31.12.2009
Sei lá, Tai... Hoje eu parei pra pensar em todas as voltas que a vida dá. Talvez por que é seu aniversário ou simplesmente talvez seja por que um velho ano se vai e outro vem por aí com força total de construção, destruição e reconstrução assim como esse que passou. Então eu percebi que preciso dizer algumas coisas a você.
A primeira delas é que não me ressinto das reviravoltas que acontecem no nosso acaso já que uma delas me trouxe você um dia, né? Naquele momento das nossas vidas em que precisamos de um apoio, uma mão amiga, um colo.. Lá estava a reciprocidade de sentimentos que, no momento, se fizeram sinceros e eternos. Eternizados no tempo pela beleza e simplicidade com que vieram, ficaram, passaram, permaneceram... Seja em nossas mentes, nossos corações, nosso passado!
Amo o jeito como a vida aconteceu pra nós de maneira a cruzar nossos caminhos e deixar contigo um pedaço de mim e comigo um pedaço seu que ficará guardado na parte sua de mim para sempre!
Não me desgosto pelo desencontro nem pela decepção. Não estou triste por ter me afastado ou chorado. Não quero, hoje, lembrar de coisas tristes. Só quero amar você e deixar que você saiba disso. Como uma lufada de ar frio que desse pelas costas, como uma mão gelada que nos toca, nosso passado é prazeroso e assustador. Por que ele nos lembra o quanto o futuro é incerto. Nos lembra o quanto as ondas podem nos empurrar em direções opostas às que planejamos pra nós mesmos. Mas uma coisa é certa, Taíse. Nesse dia meio triste, meio retrospectivo, eu quero deixar claro que você me mudou, me marcou e me ensinou como nenhuma outra pessoa fará.
Por que você é única, especial e diferente ao seu próprio tom. Você é bemol com uma coragem em sustenido, você é criança com uma asa de mãe, você é tristeza disfarçada e felicidade angustiante... Você é o conjunto de todas as coisas boas e a pitada de coisas que desagradam. Mas essa é você! E que te aceitem como é ou pisem fora levando um pedacinho de recordação. Trago comigo um pedaço seu de recordação, minha amiga. E te parabenizo hoje por que são dezenove anos deixando pedaços com algumas pessoas e crescendo cada dia mais um pouco com os pedaços que te dão. Sendo assim, que seu dia seja o melhor por que você merece e que tudo o que vier em 2010 seja pra te fazer uma pessoa ainda mais maravilhosa! Te amo para sempre e você sabe. Carla, sua irmã 747. ♥
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Pés e partos
E lá estava ela naquele dia ensolarado de fevereiro, na ilha, andando pululante pelas areias branquinhas quando, lépida e fagueira, pisou numa fogueira. Daquelas com brasas fingidas que parecem apagadas, mas, quando pisadas, arrasam as solas dos pés das meninas serelepes e - agora - não tão felizes. A pior dor que ela já sentiu em toda a sua vida. E sua tia, bondosa que era, a acudia citando casos de mil outras queimaduras ainda piores que a dela. Como se dores maiores dos outros fizessem alguma diferença na sua própria ardência. Que dor! E que vontade de enfiar uma meia goela da sua tia abaixo. Segurou-se e a dor se foi depois de algumas bolhas e pomadas.
Ontem estava ela, grávida de oito meses e meio, em pé, quase graciosa em toda a sua protuberância, no consultório da médica que faria o parto e a ouviu perguntar calmamente.
- E então, que tipo de parto vai preferir?
Ela, com toda a certeza do mundo, respondeu.
- Normal, claro.
Talvez surpresa pela resposta tão rápida, talvez interessada pela palavra de obviedade, a doutora quis saber a razão da sua escolha.
- Mas por que normal?
- Ah, é que, quando eu tinha doze anos, eu queimei meu pé.
E sorriu como se aquilo explicasse tudo. E explicava.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Horas em cambalhota
Falando outra vez do meu monstro escondido. Minha cabeça gira. Ele me espera como se eu fosse a presa indefesa que sofre antecipadamente por algo que não posso evitar. E vem, se aproxima lentamente... O vazio. Esfrega seu pêlo em minha pele, ronrona as crueldades que me fará e, misericordiosamente, finca suas garras em minha pele rasgando a alma, o miolo, os miúdos, tudo. Continuo calada. Que palavra poderia dizer em defesa própria? A dor ainda não veio, isso é só reflexo dela. Estou sentindo por antecipação, estou me dilacerando inteira por dentro por que não sei esperar o momento certo de sofrer. Conto dias, conto horas, conto relógios inteiros em suas piruetas macabras por um tempo que não passa. Ele se arrasta. A demora deveria ser aliviante, mas só faz a agonia crescer. Você não sabe, mas estou morrendo. Você não sabe, mas estou minguando. Estou caindo e você é a única pessoa que não pode me salvar agora.

Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. - Martha Medeiros
terça-feira, 4 de maio de 2010
Um calo
Ah que estou às voltas comigo mesma! Já não encontro um par de sapatos que não me esmague os passos e o juízo. Caminho sempre desesperada voltando ao seu caminho por que me acostumei com a estrada que lê meus pés como conto de fábulas já conhecido. Me encontrei numa esquina. A bifurcação estreita que todos conhecem poeticamente como encruzilhada da vida. Estou aqui, parada, pensando comigo mesma se melhor seria seguir à direita, à esquerda ou simplesmente continuar o meu caminho sem volta. É uma estrada estranha que já foi ritmada por cadências de viveres pincelados por um outro poeta que não eu. Nunca decidi que viria por aqui, mas não sei como voltar. Ou melhor, eu sei. Mas não quero. Preciso dar um fim a essa agonia de maledicências e aceitar que o meu melhor está bem longe do mais que tu tens me oferecido. Tão pouco que és, não poderia realmente esperar que me entregasse além daquilo que tu mesmo possuíste. Injusta que fui. Estou cansada, mal acostumada e enojada. Quando foi mesmo que comecei a calçar sapatos tão apertados e me sentir feliz apenas por tirá-los?
Inspirado na história de: Patrícia Massa
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Café amargo & Bouquet de rosas
Nunca ganhei rosas em junho, mas também nunca vi flores como algo que fosse essencialmente importante. Ontem me perguntei: E se fosse você a me dar, que sentido tudo isso teria? Elas simplesmente secariam e morreriam como as outras. E, quer saber? Flores têm cheiro de cemitério. Me lembram tudo, menos vida. Não penso que seria a maneira mais romântica de me dizer o que sente.
Sente rosas brancas e puras? Sente vermelho vivo? Sente amarelo? Será que o seu sentir e o meu querer podem ser traduzidos em cores? Ah, por favor, vamos! Leve-me a parar de pensar em rosas. Elas lembram morte e não quero pensar nas flores que me trará no dia em que o nosso amor morrer. Que gosto teria dizer que nosso amor se dissolveu em lembranças de flores? Sabor amargo de café passado. Lembranças de outros dias, poucas recordações meio suas, meio minhas... Nossas vivências entrelaçadas em paixões sujas e jogadas pelo chão. Pétalas secas e mortas que faço um esforço enorme para não voltar a citar, que me desdobro em intenções para me impedir de pisar.
Amor, nao as mande para mim no nosso dia, mande beijos de todas as cores, sabores, cheiros e texturas. Mande beijos enormes que coincidam com as nossas datas de encontros tão casuais quanto a lapela suja do seu palitó emaranhado ao meu sobretudo quente. Esquente minhas certezas e jogue os meus medos pela janela. Nada mais de flores, tudo agora só amores. Ao vivo, em cores.
Eu e Lena sem muito o que fazer numa noite de segunda-feira.