quinta-feira, 18 de março de 2010

Cobras e venenos.

Ela abraçou o próprio estômago e me encarou com desespero no olhar. Respirou fundo, soltou o ar e tentou pronunciar o meu nome entre sussurros ininteligíveis. Eu ri. Ela se contorcia quase imitando os meus movimentos e foi caindo, derretendo pela parede enquanto tentava se agarrar ao último fio de luz que passaria por suas pupilas dilatadas.
Agora eu tinha certeza de que o meu veneno circulava livremente por suas veias e não pude evitar um suspiro de satisfação quando percebi que seus olhos aterrorizados se abriam ainda mais. Ela arqueou a coluna e se limitou a jogar o pescoço pra trás, se abraçando com ainda mais força. Eu tinha pena por que percebia indiferente a inutilidade das suas tentativas de se manter viva. Todas frustradas do jeito mais patético que eu já presenciara. Pensei que, se fosse mais inteligente, simplesmente renunciaria a tudo e se deixaria ir com o pouco de dignidade que ainda lhe sobrara, mas ela já arfava pesadamente através dos pulmões debilitados.
Observei por mais alguns segundos sabendo que lhe restava pouco tempo de vida e dei as costas para seguir o meu caminho. Rastejei de volta às árvores, entrei calmamente na conhecida floresta que me escondia e, sozinha, contornei meu próprio corpo de serpente. De uma coisa eu tinha certeza, eu a matara e sequer sentia muito. Serenamente, dormi.

Ecstasy

Gelos em pêlos,
Pernas e cabelo,
Costas em bocas,
Mãos e poucas roupas.
Línguas e dentes
Que mordem, que lambem,
Que sugam, que puxam,
Que sentem!
Emaranhados com pedaços para todos os lados.
No chão, na parede,
Matando a sede em bocas alheias.
Ela alheia a tudo.
Ele alheio a todos.
Aperta, provoca,
Ele sussurra, ela implora.
Ele preenche, ela só sente
E faz!
Finca unha em pele e pede por mais.
Quer mais!
Quer tudo até receber com um murmúrio o apse num murro de punho coberto com veludo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Vestido vermelho.

Seus cabelos escorriam por seus ombros até o meio da cintura, sua cintura apertava-se dentro do vestido vermelho, o vermelho dos seus cabelos era já desbotado perto do vibrante das alças macias do tecido fino.
Ela se perguntou quando foi que crescera tanto a ponto de achar que o vazio dentro de si ocupava mais espaço que todas as outras coisas que havia cultivado ao longo do tempo. Será que também regara aquela coisa tão neutra que ardia em si mesma?
Pensava que talvez fosse melhor ter um sentimento qualquer de desespero, tristeza, ódio, dor. Qualquer coisa que, mesmo que machucasse, lhe desse a noção de vida, mas a única coisa que sentiu quando olhou pra dentro de si mesma foi o vento. Não um vento de brisa mansa, mas um vento que não leva nada. Um vento que não balança nada, que não ameniza dor nenhuma, que não acende fogueiras nem apaga velas. Não era vento de mar, era vento de quietude.
Ela olhou no espelho por um momento infinito e imaginou-se com o cabelo mais vibrante, com o vestido mais desbotado e, ao se ver ao avesso, cuspiu a imagem mental que o espelho refletia. Preferia ser ela mesma com todo o vazio que sentia a ser qualquer outra a quem desconhecia.
Preferia não sentir nada a sentir os sentimentos de outrém. Ela gostava de não sentir se isso fosse o que o destino reservava para a pessoa que era em seu completo. Ser neutra, ser brisa. Afinal, o que seria do sol sem o seu vento?
Abafada, ela sorriu. Sem calor, sem frio. Só ela mesma preenchida por seu próprio vazio. 


    

segunda-feira, 15 de março de 2010

Fluindo

Corre dentro de mim um rio de saudade com correnteza forte. Vez ou outra deposito em suas águas o meu barco de pensamentos e o ancoro em lembranças perdidas n'algum lugar muito interno meu. São ilhas de feitos, são serenidades repletas de efeitos, são frases nos tendo por sujeitos, são crimes secretos dos quais somos suspeitos.
Desço correnteza abaixo e deságuo em mim num sentido mais amplo de me ser. Mar meu.
Minha saudade é balão de ar que se enche em mim comprimindo e escanteando qualquer outro sentimento. É beleza de nada pois o que melhor traduz saudade que senão vazio?
Num rio cheio de vontade que tem ritmo constante por fim, sou barco a vela, estou porto de espera, sou maré vazante de mim.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Suas Mãos

Sinto mãos delicadas em meus ombros. Mãos que ajeitam as cordas, mãos que cuidam de mim. Foram essas mãos que me fizeram o que sou e, por isso, sou imensamente grata.
Não chego a me lembrar de como parecia antes de tê-las me arrumando, me enfeitando, me tocando com leveza. Meus movimentos são perfeitos através do contato daquelas mãos suaves e abro a boca para agradecer, mas a voz que escuto não é a minha. Essa é a voz que acompanha as mãos. A cadência que sempre escuto quando abro a boca, no tom que eu amo.
Percebo os dedos me apertando, observo minhas pernas se dobrando e, lentamente, sou posta em meu lugar outra vez. Estou em casa, na minha caixa, lado a lado com todas as outras marionetes que ele guarda.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Outra Amiga

Tenha consciência dos seus atos, muleque.
Somos diferentes, mas a sua indiferença é sufocante.
Estou com medo, rapaz.
Você vai embora e quem sabe se não volta mais?
Olhe nos meus olhos e só finja que se importa.
Eu mesma já sei que pra você é frieza, mas meu calor deveria derreter seu gelo.
Só sinto frio.
Estou tremendo, menino.
Me abrace como você prometeu que faria.
Aliás, você prometeu isso algum dia?
Ouvi palavras demais escondidas por trás das suas verdade não ditas.
Sou tudo misturado dentro disso.
Estou tão longe enquanto você está perto.
Estou tão perto de mandar tudo à casa da porra.
Que morra!
Morra esse amor, morra essa vontade de ter mais!
Que saia da minha frente você e seu quase-amor.
Cansei de metades.
Quero você inteiro ou não quero nada mais.
Sou insegura, sou indefesa, mas aprendi a combater meus medos.
Tenho medo de mim mesma quando penso em nós dois, então aprendi a me combater.
Não vou ser mais isso e, como não posso dizer "dane-se eu", então dane-se você!



Inspirado na história de Kerolz.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Fechaduras bem minhas

Eu comecei esse texto meio sem saber pra onde ir com as palavras confusas que preciso cuspir, mas cansei de ser forte por hoje. Aliás, cansei de ser forte por tempo indeterminado e esse texto é minha bandeira branca.
Não consigo mais fingir que sua risada parou de fazer eco no telefone mudo. Duas vezes na semana passada eu o tirei do gancho repetindo pra mim mesma que tinha esquecido pra quem ia ligar de última hora. Mentira minha, claro. Gosto de ficar imaginando que, entre um "tu" e outro, há você pensativo do outro lado.
Eu fico olhando a minha própria cama - enfeitada com o único cachorrinho solitário que você me deu - e me lembrando das suas promessas de vir me acordar qualquer dia só pra que eu tivesse a surpresa de ver seu rosto assim que abrisse os olhos. Então me sinto idiota, recrimino o pensamento e começo a alimentar a certeza de que você tinha uma senso de humor ridículo. Onde já se viu querer acordar alguém de surpresa? Ridículo.
Estou escrevendo esse texto pra abrir uma porta de memórias que tranquei no dia em que você me disse que não dava mais. Naquele dia eu só fiquei muda e sorri como que dizendo que já esperava por isso. Não foi um sorriso irônico em tom de acusação, eu realmente já esperava. Todo mundo tem sua temporada de flores, mas ela sempre acaba e quase nunca se tem uma explicação. Não gritei para que me mostrasse razões por que anestesiei dentro de mim a dor crônica depois da sua pontada agúda de verdade. Eu estava destruída, você se cansara. Mas quem disse que eu ia enlouquecer e espernear? Nem pensei em perguntar se havia outra pessoa - nunca quis saber. Não planejei esperar que você mudasse de idéia. Eu simplesmente sabia.
Você teria que, como o sol faz todos os dias, ir embora um dia, mas, diferente dele, você não voltaria. Eu sabia e me muni de coragem para enfrentar as perguntas de todos e os olhares de pena. Não queria que sentissem pena de mim, mas, de verdade, não me importava se sentissem. Só me importava com a porta que você fechou e eu tranquei.
Hoje parei de olhar pela fechadura e abri esse quarto outra vez. As memórias me invadiram então sentei para escrever. Falar em forma de rabisco sobre os beijos escondidos, as risadas nervosas, aquela vez em que eu falei besteira na frente da sua mãe e você ficou me enviando seu pensamento mais forte de "cala a boca, amor", os abraços apertados nos aeroportos, as madrugadas que passamos ao telefone e todos os dias que vimos amanhecer em meio a risadas contidas e bocejos leves.
Hoje eu abri aquela porta e estaquei. A força das lembranças me atingiu em cheio, mas me recusei a trnacar tudo outra vez. Percebi que ser forte não é fingir que não se importa e deixar o homem que ama ir embora como se fosse só mais uma primavera.
Agora talvez seja tarde demais pra nós dois, mas deixei suas palavras encerrarem o efeito da minha anestesia e ouvi o "não dá mais" pela primeira vez deixando que a escorresse dentro de mim toda a dor que represei.
Sentei em algum lugar, chorei em silêncio por uma ferida antiga e peguei esse caderno pra escrever sobre você.
Eu fui bastante forte, se quer saber, mas é como você me disse aquele dia do seu jeito contido: chega uma hora que não dá mais.