sábado, 19 de setembro de 2009

Wherever

Comecei a procurar agora.. Em todos os cantos dentro de mim até saber que não encontraria em lugar algum. Nem em meio às emoções que deixei amontoadas e sujas no quarto, nem debaixo da cama de tranquilidade e angústia que me deito todos os dias. Comecei a procurar agora e vejo que Clarice Lispector estava certa o tempo todo. "Não se sabe qual defeito sustenta o edifício inteiro". Qual terá sido o defeito que, erradamente, arranquei de mim pra que hoje, olhando em meus próprios olhos no espelho, contemplasse o vazio? Será que podei tanto a ponto da ausência de mim mesma ser perceptível até pela outra metade que deixei? Meu pedaço.. Eu te dei? Aonde coloquei? Droga... "Quando você olha muito tempo pra o abismo, ele olha de volta pra você". Certos outra vez.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Brega

Estou me sentindo meio brega hoje. Com aquela vontade esquisita de cantar uma música antiga enquanto visito o site da turma da mônica rindo sem parar de quadrinhos idiotas. Sinto como se ser inteligente fosse só mais uma bobagem anunciada aos quatro ventos por todos esses que prezam muito mais a beleza que o que as pessoas são de fato. E não sou hipócrita, ainda acredito na inteligência, ainda acredito na beleza. É só que, só por hoje, queria me sentir livre pra sair na rua com meu cabelo preso no lugar mais alto da cabeça, ou com minha calça no umbigo, quem sabe? Queria rir de minhas piadas particulares na frente de todo mundo e, mais que isso, mascar chiclete alto e ser nojenta. Ah, que sonho é ser aquela fora-da-lei incorrigível, né? Uma pessoa com asas demais e disponibilidade de voar pra todos os cantos que desejar. Falando em voar... Me deu saudade dele. E quando me dá saudade eu prefiro não escrever mais. Vou parar por aqui pra não ser piegas. Ta vendo? Até quando quero ser brega evito ser piegas. Díficil ser chique.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Café Pequeno

Nós dois conquistamos a amizade um do outro tão rápido que acho que nos víamos através das escamas de perfeição que vedam os olhos de qualquer novo amigo antes da plena consciência dos defeitos do outro. Ele era daqueles caras seguros de si que andam não com o rei na barriga, como diria a minha mãe, mas debaixo dos pés. É, ele caminhava por sobre a realeza e se sobrepujava em conhecimento sentimental e auto-controle. Um rapaz tão frio quanto uma noite solitária e tão comedido quanto 300 ml de leite para bolo. Bem, ao menos eu o pensava ser. Ele me fez acreditar na projeção que fazia de si mesmo e eu, de alguma maneira estranha, transbordei mais capacidade de perdão do que havia em minhas reservas particulares. Então veio, como um baque surdo, premeditado e esperado, o açoite da escolha que ele fez.


A dor do desejo de esquecer latejou forte em minha pele marcada, mas a ardência da impossibilidade de deixar pra trás foi o que me consumiu e contorceu até esse leve estado de torpor em que me acho.


Claro que eu podia simplesmente apagar, mas, você sabe, uma boa amizade é como café. Depois que esfria pode ser requentado, mas terá perdido muito do primeiro sabor.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Morna

Tem dias que eu me sinto assim. E assim é assim-assim. Nem completamente cheia, nem vazia. Me sinto morna e isso é tão estranho quanto me sentir quente ou fria. Não. Mais ainda. É como se eu quisesse algo que pudesse quase tocar e não tivesse vontade de me levantar pra pegar. E hoje também não quero escrever com palavras bonitas. Só vou dizer que estou chateada pelo rumo de nada que minha vida ta seguindo. Não posso fazer porra de plano nenhum, mas tenho que alimentar esperanças. Droga de esperança que me impulsiona a fazer planos. Sorriso filho-de-uma-puta que não sai do meu olhar mesmo que não sorria com os lábios. E assim, com um sorriso meio-a-meio - pois é sorriso de olhos, mas não de lábios - sigo morna. Quase sendo vomitada da boca de alguém. Mas é só por hoje, ok?

domingo, 6 de setembro de 2009

Vai passar

"Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas agüenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. (Fernando Pessoa escreveu, num momento parecido, "hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu")


Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida.
Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás.


Você acha que não porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe.


A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo - é difícil de acreditar, eu sei - vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou.


Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. Como cantou Vinícius: "É melhor viver do que ser feliz". Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói,ai,eu sei como dói. Mas passa.


Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o unico jeito de deixá-la pra trás é continuar andando.


Você vai ser feliz.


Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto de agulha?P>
Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade.


Eu não minto.


Vai passar."


Antônio Prata

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sem sombras

"Senti o sangue subir por meu rosto e desejei, subitamente, que fosse uma quentura de raiva. Pensei por um segundo que eu deveria estar chateada por sua resposta pouco delicada ou por sua súbita falta de interesse em qualquer coisa que eu dissesse. Mas a temperatura do meu rosto só aumentava por ter certeza de que estava envergonhada e o pior era que eu sabia."


Acho quase fascinante a maneira como a minha montanha russa de emoções guia seus loopings de uma maneira subconscientemente paralela ao seu estado de graça. Se seu sorriso é mais divertido, o meu também é. Se sua tagarelisse é apreensiva, o ritmo da minha respiração acalma-se no seu compasso. E define-se dentro do que você está.


Penso ser meio boba toda essa história espalhada aos quatro ventos de que você se torna o reflexo da pessoa por quem se apaixona. Já estou plenamente convencida de não ser a sua sombra, mas eu posso sentir internamente como se você fosse a lua que guia as minhas marés. Eu, inconstante como o mar. Você, sólido e imponente. Às vezes tão distante outras vezes tão quente. No nosso vai-e-vem inconstante a sensação é única de maresia, dormência e leveza. Quase me dá sono olhar pra nós dois juntos. Com jogos que já são tão escancarados que qualquer um ponderaria tratar de dois idiotas fingindo fingir que não há nada. Não somos. Já sabemos o que acontece, mas gostamos de brincar com a verdade e moldá-la a nosso gosto. Como se uma hora fôssemos tudo que o outro tem e, outra hora, não tivéssemos nada a oferecer. Respiro fundo o meu cheiro de mar salgado e esvazio-me já esperando o momento em que, com um comando mudo seu, encherei outra vez pra percebê-lo orbitando ao meu redor. Não somos reflexos, somos completos. E complexos.


"Não adoro nem venero, mas gosto na medida sadia e humana em que uma pessoa pode gostar de outra..." - Caio F. Abreu

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Meus duendes

Estou triste agora. Daquelas tristezas que vêm de parte alguma apenas pra nos fazer sentir um pouco mais humanos. Meio como uma lufada de ar gelado que nos pega de surpresa num calor escaldante e desce pela espinhas arrepiando os cabelos da nuca, sabe?


Fato é que mal sinto vontade de escrever, ler ou conversar... E me aperta uma vontade louca de chorar - quase como se houvesse motivo pra isso.


Escuto agora alguma música quase fúnebre que embala docemente todo o meu desprazer em sorrir. Não quero mais e nem sei por que. Acho que algo aconteceu com os meus duendes do contentamento. Não digo que se foram, mas precisavam dormir um pouco. Vieram, viraram minha casa de cabeça pra baixo, e agora descansam até o momento em que acordarão prontos a me bagunçar outra vez. Espero.


"Dai-me Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo, um ponto de partida para um novo avanço." - Cecília Meireles