quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sem sombras

"Senti o sangue subir por meu rosto e desejei, subitamente, que fosse uma quentura de raiva. Pensei por um segundo que eu deveria estar chateada por sua resposta pouco delicada ou por sua súbita falta de interesse em qualquer coisa que eu dissesse. Mas a temperatura do meu rosto só aumentava por ter certeza de que estava envergonhada e o pior era que eu sabia."


Acho quase fascinante a maneira como a minha montanha russa de emoções guia seus loopings de uma maneira subconscientemente paralela ao seu estado de graça. Se seu sorriso é mais divertido, o meu também é. Se sua tagarelisse é apreensiva, o ritmo da minha respiração acalma-se no seu compasso. E define-se dentro do que você está.


Penso ser meio boba toda essa história espalhada aos quatro ventos de que você se torna o reflexo da pessoa por quem se apaixona. Já estou plenamente convencida de não ser a sua sombra, mas eu posso sentir internamente como se você fosse a lua que guia as minhas marés. Eu, inconstante como o mar. Você, sólido e imponente. Às vezes tão distante outras vezes tão quente. No nosso vai-e-vem inconstante a sensação é única de maresia, dormência e leveza. Quase me dá sono olhar pra nós dois juntos. Com jogos que já são tão escancarados que qualquer um ponderaria tratar de dois idiotas fingindo fingir que não há nada. Não somos. Já sabemos o que acontece, mas gostamos de brincar com a verdade e moldá-la a nosso gosto. Como se uma hora fôssemos tudo que o outro tem e, outra hora, não tivéssemos nada a oferecer. Respiro fundo o meu cheiro de mar salgado e esvazio-me já esperando o momento em que, com um comando mudo seu, encherei outra vez pra percebê-lo orbitando ao meu redor. Não somos reflexos, somos completos. E complexos.


"Não adoro nem venero, mas gosto na medida sadia e humana em que uma pessoa pode gostar de outra..." - Caio F. Abreu

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Meus duendes

Estou triste agora. Daquelas tristezas que vêm de parte alguma apenas pra nos fazer sentir um pouco mais humanos. Meio como uma lufada de ar gelado que nos pega de surpresa num calor escaldante e desce pela espinhas arrepiando os cabelos da nuca, sabe?


Fato é que mal sinto vontade de escrever, ler ou conversar... E me aperta uma vontade louca de chorar - quase como se houvesse motivo pra isso.


Escuto agora alguma música quase fúnebre que embala docemente todo o meu desprazer em sorrir. Não quero mais e nem sei por que. Acho que algo aconteceu com os meus duendes do contentamento. Não digo que se foram, mas precisavam dormir um pouco. Vieram, viraram minha casa de cabeça pra baixo, e agora descansam até o momento em que acordarão prontos a me bagunçar outra vez. Espero.


"Dai-me Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo, um ponto de partida para um novo avanço." - Cecília Meireles

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sou palhaça

Depois de um quilo, dois meses e alguns gramas de brincadeiras bobas cuspidas por uma boca ingenuamente bendizente, aqui estou. Querendo ser feliz ao meu próprio tom. Sem precisar de ritmos diversos ou palpites controversos a respeito de quem eu sou. Não quero definições que restrinjam o meu sorriso, a minha bobagem... Felicidade.


Se é com essas cores que pinto o meu quadro de sensações, sinto muito caso não te agrade o meu jeito de viver minhas próprias emoções. São minhas. A licença poética me pertence de maneira tal que, dentro de mim, posso ser qualquer coisa que queira e, no momento, quero ser boba. E sou. Talvez esse seja o preço que pago pra ser energia fluida de uma paz que me consome.


Já ouviu falar disso? Paz que consome por dentro como se queimasse? Parece que preciso tirar a roupa de tanto que desejo que a ardência pare. Não uma roupa física que se pega com as mãos, joga-se ao chão, pisa-se, escanteia-se... Uma roupa mais espiritual, uma roupa de aura, uma vestimenta interna. É paz demais e tanta que me agonia ser a artista mais paradoxal desse circo de felicidade.


"Certas coisas são tão evidentes, apesar de inexplicáveis, que a gente não pode deixar de acreditar." - Caio F. Abreu

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Silêncio

Me visto dele e observo. Percebo intenções e sensações. Escuto palavras não ditas, capto olhares perdidos e me insiro vagarosamente num um mundo completamente mudo em que as pessoas continuam gritando seus ritmos frenéticos. Outras tantas se trancam no mesmo espaço sufocante em que estou, embora sejam protagonistas da sua própria criação. Representam. Eu não! Não é que seja de poucas palavras. Pelo menos não o tempo todo, eu diria. Mas há momentos em que a minha solidão grita e angustia-se. Sozinha. Eu apenas observo a falta de companhia e sorrio pra mim mesma pensando dentro de mim que estou muito bem assim. Comigo e só. Não quero e nem preciso de mais ninguém. Nem sons, nem sonhos. Ou voz. Abano a cabeça, encaixo-me no todo e escuto. Mais uma vez: Silêncio.


"O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio." - Clarice Lispector

Francamente?

Desconheço-me.
Olho para dentro de mim e vejo verdade. Mentira, não? Vejo felicidade - sem a velha capa de falsidade que hoje jaz rota no chão -. O meu maquinal numa superfície espelhada qualquer, finalmente retrata quem sou. Sou isso, apenas riso e sorriso. Completa. Não me falta uma parte sequer a ser preenchida - mesmo que de maneira alguma dispense o que me acrescenta -. Vida! Sem mais tantas perguntas irrespondíveis ao meu próprio respeito. Agora sou somente o que se vê, embora nem todos vejam o quão intensamento o sou.

"E a vida existe e também é bonita. E se renova. Tem lados de luz." - Caio F. Abreu

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

14.07.2005

Olhe nos meus olhos.
Agora podes ver?
Podes enxergar?
Olhe nos meus olhos
Agora podes entender?
Podes me explicar?
Olhe nos meus olhos
Vê bem lá no fundo tudo que escondi?
Percebe em meus olhos tudo o que sofri?
Olhe nos meus olhos
Verás no mais profundo um infinito de amor.
Agora esqueças tudo! Simplesmente acabou...
Olhe nos meus olhos
Vê tudo que cobre aquele sentimento?
Vê a profundidade do meu sofrimento?
Jamais olhei em teus olhos por que nunca quis que soubesse
Que por maior amor que houvesse,
Você o fez morrer.
O fez morrer com palavras
Mas muito mais com ações.
Com coisas que falavas.
Ou que fazias ou não.
O fez morrer pouco a pouco
Com cada olhar não sustentado
Com cada beijo intercalados de promessas sem fim.
E fez morrer bem lentamente
Cada vez mais intensamente
Tudo de bom que havia em mim.

"Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes." - Friedrich W. Nietzsche

Um não-texto

Ocorre-me agora que tive vontade de escrever há pouco e não me lembro mais o que diria. Foi vontade flutuante que veio e foi tão mais rápido que os meus dedos e mais ágil que minha organização. Os pensamentos chegaram e saíram sem limpar os pés, sem sentar pra um lanche, sem se prender à parede, sem me sorrir por mais de um minuto. Ficaram e deixaram um sabor, um cheiro, uma marca e mais nada. Escrevo então como em homenagem a uma idéia fugitiva. Me fugiu e agora perambula por aí com seu sorriso mais bonito. Quando a encontrar, devolva-me. A preciso.


"Eu te procurei em dicionários e não encontrei teu significado. onde está teu sinônimo no mundo? onde está o meu sinônimo na vida? sou ímpar." - Clarice Lispector